Medicina Interna

Dra Ana Jerónimo 

A designação Medicina Interna (do alemão Innere) tem, na sua origem, a referência ao conhecimento profundo, científico das doenças.

Medicina Interna, de vocação essencialmente cognitiva, dedicada a tratamentos “médicos” (não cirúrgicos), é uma especialidade generalista, que se distingue da Medicina Geral e Familiar por ser exclusivamente dedicada a doentes adultos, por ser vocacionada para a complexidade e por ser predominantemente hospitalar. É, a par da Cirurgia Geral (esta essencialmente técnica, dedicada a tratamentos cirúrgicos), uma das grandes especialidades hospitalares.

Ao contrário da maioria das especialidades, que se definem por se dedicarem a um determinado órgão ou sistema (ex: Cardiologia, Endocrinologia) ou a um determinado tipo de doenças (ex: Oncologia), a Medicina Interna define-se como uma especialidade mais de doentes do que de doenças. Ou seja, o internista é um médico que dedica a sua atenção à pessoa como um todo e que se distingue por ser o perito na abordagem clínica exaustiva de cada doente. Daí decorre que seja um médico particularmente apto a lidar com doentes complexos, com múltiplas doenças, com doenças que afectam vários órgãos ou sistemas, assim como com pessoas com doenças raras ou com quadros clínicos difíceis, ainda sem diagnóstico.

Perante um doente com vários problemas clínicos (por exemplo, cardíacos, pulmonares, renais, cerebrais e metabólicos), mais do que o somatório entre cardiologista, pneumologista, nefrologista, neurologista e endocrinologista, o internista é o médico do doente, que compreende todos esses problemas e a sua inter-relação e que está em melhores condições de ver o todo, de definir prioridades e de, em conjunto com o doente, definir o plano de actuação mais adequado e mais eficiente. Os cuidados médicos hospitalares devem organizar-se em torno das necessidades de cada doente, com uma equipa multidisciplinar que inclua todas as especialidades necessárias e que seja coordenada por uma espécie de maestro – o internista. O espectro de conhecimentos da Medicina Interna é de tal maneira vasto que é inevitável que haja internistas com dedicação a diferentes áreas específicas e que desenvolvam uma difererenciação nessas áreas. Entre estas estão as Doenças Sistémicas de toda a natureza (por exemplo, a infecção VIH, as doenças autoimunes, a Diabetes); as Doenças Raras e Complexas; as situações de grande vulnerabilidade, como os doentes idosos que sofrem de múltiplas doenças ou os doentes que necessitam de cuidados paliativos; a Medicina do doente agudo e do doente crítico; toda a área do risco cardio-vascular e suas consequências; e as grandes disfunções de órgão (cardíaca, respiratória, cerebral, hepática, renal).

Assim, existem e estão em construção sistemas de certificação nestas diversas áreas de diferenciação. Na verdade, existem internistas dedicados às mais diversas áreas dentro dos hospitais: intensivistas, emergencistas, paliativistas, geriatras, hepatologistas, diabetologistas, imunologistas, consultores de Serviços Cirúrgicos, professores, investigadores, administradores, etc. Como médicos pluripotenciais, dotados de uma formação generalista e de capacidade de lidar com doentes de todo o tipo, em todos os tipos de contexto, os internistas são elementos imprescindíveis em todos os níveis de cuidados, desde os Cuidados Primários (com uma forte relação com a Medicina Geral e Familiar, desde a fase preventiva das doenças) até à Medicina Intensiva, passando pelos Serviços de Urgência, pelas Unidades de Cuidados Intermédios, de AVC, de Insuficiência Cardíaca, de Cuidados Paliativos, pelo internamento em grandes Departamentos Médicos Polivalentes, pelo internamento de doentes em Enfermarias Cirúrgicas, pelos Cuidados Continuados, pela participação na Gestão e pelo forte envolvimento no Ensino e na Investigação Científica.

Em suma, o internista corresponde ao modelo ideal que as pessoas em geral têm do médico: alguém que escuta o doente, que lhe dá tempo e atenção, que o trata com respeito e humanidade, que o informa adequadamente, que conhece as suas prioridades; alguém que se preocupa e que é exaustivo, estudioso, culto, interventivo mas sensato, capaz de dar resposta à maioria dos problemas médicos que se lhe apresentam e com grande sentido ético.